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.Nome : Flávia Lima
.Idade: 26 anos
.Escrevo quando dá, e menos do que gostaria. Blog existencial.
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Meu nome é Flávia Lima, tenho 24 anos, e escrevo quando dá, e menos do que eu gostaria

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Terça-feira, Junho 16, 2009



Hold the gun
Way deep down
Look out beyond the sun
Look out beyond the sun

Good things coming
'Cause the good thing's coming

Shotguns with no guns
Shot army with no army at all

I don't know what is worse
And I can't tell what is the best
People emphasize the way of the world
Demons despise the sound of shaking paper
Guess what I found out
You
Too


postado por Lost in translations às 12:47 AM

Quinta-feira, Junho 04, 2009

I want now to tell you, gentlemen, whether you care to
hear it or not, why I could not even become an insect.
I tell you solemnly, that I have many times tried to be-
come an insect. But I was not equal even to that.


postado por Lost in translations às 8:53 PM

Quarta-feira, Abril 29, 2009






postado por Lost in translations às 12:31 AM

Domingo, Março 29, 2009



Lyrics | Radiohead Lyrics | Reckoner Lyrics


postado por Lost in translations às 11:49 PM

Segunda-feira, Março 09, 2009

Grande mulher


postado por Lost in translations às 9:22 PM

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Longe

Eu me distraio e quando percebo já era, e quando
já era, já foi. E meus olhos não mentiram, juram
para mim todas as noites que viram algo além
do que esperavam.

É que eu me distraio, e quando você me olha não
restam dúvidas, mas quando me vejo no espelho,
sim.


postado por Lost in translations às 5:15 AM

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

Evaporar

Rodrigo Amarante

Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr,
Custe o que custar...

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr,
Corre o que custar...

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei

E ando ainda atrás
Desse tempo
Teee... empo de não correr,
E ele me encontrar,
Ah... não se mexer!
Beija-flor no ar

O rio fica lá
A água que correu
Chega na maré,
Ele vira mar...

Como se morrer
Fosse desaguar!
Derramar no céu,
Se purificar...

Ah... deixar pra trás,
Sais e minerais,

Evaporar...



postado por Lost in translations às 5:20 AM

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Vinicius pra inspirar a quarta chata, um dia ruim

Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor


postado por Lost in translations às 11:57 AM

O verdadeiro sonho

Poucas pessoas entenderiam o que eu estarei
sentindo no dia 20 de março de 2009. Poucas
vão estar em um estado de transe hipnótico
tão profundo, e poucas vão poder sentir o que
vou sentir. Não que me considere um tipo de fã
'superior', ou mais autêntica, apenas sei o quanto
os acordes de Tom Yorke vão me transportar
para muito longe e muito perto: no pensamento
e, principalmente, dentro de mim.

Chegaram. Os ingressos estão na minha mão.


postado por Lost in translations às 11:50 AM

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Devaneios de verão



Eu quero um cara fofo. Não importa se os homens acham o adjetivo
pejorativo ou ruim, eu quero um cara fofo e pronto. Quero porque eu
não ligo pra quem tem medo de sentir ou de dizer palavras doces num
mundo assim tão cinza e sem emoções de verdade. Aliás, nunca con-
cordei com essa história do papel social do macho. Jamais achei 'român-
tica' a idéia do relacionamento clássico, aquele com várias puladas de
cerca, enquanto as mulheres infelizes e mal amadas suspiram...'ah, ele
é homem, é assim mesmo...'. Não, não é.

Não acredito em homem que não chora, muito menos em homens que
veêm as mulheres como 'seres inferiores'. Homem pra mim, com 'H'
maiúsculo, é aquele que ama as mulheres de verdade, desde o cheiro
à cada pedaço da essência feminina, que preza nossas diferenças e
sabe o quanto esta troca é importante. Homem de atitude, que sabe
o que quer e não tem medo de dizer não enquanto
todos lhe impelem a dizer sim, e vice-e-versa. Para mim não há graça
se for pela metade, muito menos sem palavras fofas, apelidos carinho-
sos e pequenas supresas do cotidiano, aquelas que fazem a gente
passar um dia inteirinho sonhando com a hora de se reencontrar.

Eu quero um cara fofo, e pronto.


postado por Lost in translations às 1:34 PM

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

O clima agora é esse...

Te esperei na lua crescer
Ví cadeira boa sentei
Espirrei na tua gripei
Por ficar ao léo resfriei
Você me agradou me acertou
Me miseravou, me aqueceu
Me rasgou a roupa e valeu
E jurou conversas de Deus

Aganjú (...)

Quem sabe a labuta quitar
Sabe o trabalho que dá
Batalhar o pão e trazer
Para a casa o sobreviver

Encontrei na rua a questão
Cem por cento a falta de chão
Vou rezar prá nunca perder
Essa estrutura que é você

Aganjú (...)


postado por Lost in translations às 4:17 PM

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Quem somos e o que esperamos da vida

Eu vivo procurando artigos pela internet com assuntos
que me agradam, e Filosofia é meu predileto. Hoje li
um bem interessante, num site meio 'místico' chamado
Vya Estelar, hospedado pelo UOL. É de autoria
de Monica Aiub, e vou postar um pedacinho que me des-
pertou a atenção:

Há quem aponte como característica do mundo contemporâneo
a fragmentação: “ Somos seres fragmentados em um mundo
fragmentado”. Em pedaços espalhados pela vida, tentamos,
em vão, encontrar algo que una, ligue, compacte.


Recebo, no consultório, pessoas que sofrem com a
sensação de fragmentação, que lutam para encontrar
“sua identidade”, “seu ser”. Mas recebo também, no
mesmo consultório, pessoas que encontram no
fragmentar-se um modo de vida, uma forma de ser,
que encontram uma identidade fragmentada ou, simples-
mente, são estes muitos fragmentos espalhados pela vida.


Encontro pessoas extremamente insatisfeitas com
suas vidas, acreditando que não é possível viver de
outra forma. Encontro também pessoas que estão
insatisfeitas com suas vidas, mas acreditam que
necessitam sonhar, re-inventar suas formas de vida.


(...)

Se ao invés de ter se dirigido a sua área de trabalho
atual tivesse feito a escolha que deixou para trás, se
ao invés de ter viajado tivesse se casado com aquela
pessoa que você nunca mais viu, etc. Onde você estaria
hoje? Mas estas idéias são apenas uma ficção. Não há
como saber se teria sido melhor, se teria dado certo.
Assim como, no momento de nossas escolhas, não há
como saber se elas nos levarão ao lugar existencial para
o qual desejamos nos dirigir.


(...)

O que fazer quando, diante de nossa própria vida,
constatamos que o lugar existencial que construímos
para nós “não era tudo isso”, “não é o que dese-
jaríamos que fosse, “não atende a nossas neces-
sidades existenciais”?


Até aqui, deu para acompanhar? Bom, então
agora faça um exercício de reflexão e responda,
para si mesmo, as perguntas propostas pela autora
no parágrafo abaixo...

(...)

Entre estes extremos, todos os graus de variação
são possíveis. Como o mundo parece para você?
E o outro? Como você avalia tudo o que viveu até
o momento? Já constatou elementos que gostaria
de modificar no mundo a sua volta? Sua leitura do
mundo, comparada a de outras pessoas, é mais
ou menos correta? De que maneira a leitura que
você faz do mundo, as crenças que constitui sobre
ele, direcionam seu existir?


Pense agora se você foi honesto nas respostas,
se através delas conseguiu identificar algum pensa-
mento negativo, algo que possa interferir na busca
pela sua realização pessoal, depois ajuste as suas
energias e pare de perder tempo: vá ser feliz, agora!

;)


E adianto um feliz 2009 para todos.

Que os caminhos apareçam, que os sonhos crescam
sem medo, que as decepções inevitáveis da vida
sejam facilmente contornadas, e, finalmente, que você
ame mais, se doe e troque mais.

O retorno do bem é sempre o bem. Garanto...


postado por Lost in translations às 6:14 PM

Máscaras



Se não fosse o riso fácil
A brincadeira de ser duas
A noite de lua em blur
E esse tom avermelhado



E se de longe você me visse
Quem sabe
Sem máscaras ou devaneios



Pudesse me dizer quem sou eu
E eu agradeceria com um beijo...


postado por Lost in translations às 1:27 PM

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Rádio MEC e meus parabéns

Há notícias que não são nem bombásticas nem
ultra hiper interessantes, mas que valem a pena
divulgar. E como aqui o espaço é meu, quem edita
bate o martelo sou euzinha, faço questão de deixar
meus parabéns à equipe da Rádio MEC.

Além de ouvinte - é a única estação do dial que eu
consigo suportar por mais de uma hora - eu sempre
admirei a atmosfera pela qual a rádio sempre optou.
A defesa da música clássica - num Brasil em que,
se deixar, ela some de vez - e de compositores
brasileiros que merecem reconhecimento são
algumas das posturas com as quais me identifico.

Além de ter levado o Prêmio Embratel na categoria
Reportagem, a MEC-AM recebeu da Unicef o Prêmio
ICDB 2008-International Children's Day of Broadcasting
Awards (Dia Internacional da Criança na Mídia).
Eita nome grande!

O prêmio foi pela programação especial que a
rádio veiculou no dia 9 de dezembro de 2007,
durante 24 horas, com entrevistas, spots, progra-
mas musicais, poesia, literatura, radiodocumentários
e debates.

Agora vocês podem me chamar de piegas
e de careta que eu nem ligo.

Prefiro uma programação dessas que o disquinho
arranhado que as outras rádios comerciais tocam
por aí.

Em um mundo tão sem controle de qualidade,
só me interessa mesmo o que ninguém quer.

;)


postado por Lost in translations às 3:44 PM

Domingo, Novembro 16, 2008

Mais um domingo



Hoje é domingo, o sol bateu contra o vento gelado e parecia que
todo mundo estava com um sorriso no rosto desde o primeiro
momento em que pisei na rua. Era como se o sábado tivesse sido
super agradável para todo mundo, o Flamengo ainda meteu cinco
nos paulistas no Maraca – e eu, além de me amarrar em São Paulo,
sou botafoguense, diga-se de passagem – e as mesinhas de
chope com filé oswaldo aranha fritando na brasa se multiplicaram.

Velho milagre carioca.

Eu fui me escondendo do vento e em vários momentos vivi situa-
ções absurdamente constrangedoras por causa dele. Eu sabia
que o vestido era soltinho, mas na cabine da loja não havia simula-
dores de tornados tropicais nem de ventania do Aterro do Fla-
mengo. Eu, botafoguense, vestida de preto, para matar, e segu-
rando a saia feito fraldas. Ridículo. Até que tirei de letra, e depois
consegui caminhar até a minha casa curtindo o visual de um típico do-
mingo.

As famílias entrando nos táxis nas portas dos edifícios, o
clima de almoço na vovó, os cachorrinhos contentes por uns minu-
tos a mais de atenção do que nas segundas ou quartas-feiras, e
até os vendedores de picolé ficam radiantes. Todo mundo quer
matar a sede de calor.

Mesmo no domingo.


postado por Lost in translations às 7:24 PM

Terça-feira, Novembro 11, 2008

DAVID PERRY

VIBE GIRL



Que meiga. Quase eu.


postado por Lost in translations às 2:18 AM

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

O Tempo



Poxa, tempo. Você é autoritário, vai. Chega sempre em
cima da hora e me diz 'Faz!', 'Diz!', 'Corre!', 'Liga!', e depois
passa, continua passando, e dita meu ritmo e meus passos.

Eu reluto, brigo, tento dar uma enganada e faço até pirraça.
Chega, tempo! Não venha por hoje apenas. Chega de perse-
guição, não venha me encher o saco. Ou vê então se congela
um pouquinho e me dá um break, que a coisa tá preta. Nem
meu corpo agüenta mais essa tua pressão. Alivia e espera
que em breve eu tô no pique de novo e você pode ousar
dessa sua crueldade de ser tão escasso e especial.

Tempo, diz pra mim quanto você cobra por dia, que eu
compro suas diárias se estiver ao meu alcance. Mas não
me peça para ser mais resumida quando estiver a des-
crever a luz da lua, muito menos com os pés fincados
na areia e olhando os barquinhos coloridos boiarem.

Não preciso nem de muitas festas para distrair o peso
dos dias. A verdade é que sou festeira, mas amo muito
mais a luz do dia, branquinho, feito folha nova, pronto para
recomeçar. Aliás, tempo, aproveita e, se puder, avisa ao
Sol que também estou disposta a pagar pelas diárias dele,
já que ando precisando ver o mar...


postado por Lost in translations às 1:19 AM

Domingo, Novembro 09, 2008

Um convite pras coléuga tudo



Nestas últimas semanas, muito por acaso, tenho ouvido
muito funk e Hip Hop. Primeiro durante os jogos do Ba-
talha Das Quadras, um campeonato da Nike que fui
contratada para cobrir. É um evento meio ligado à cul-
tura dos quatro elementos, tem grafite na decoração
do cenário e DJs tocando ao vivo, durante a pelada na
quadra. E os DJs que a Nike contratou são bons: Saci,
Lulinha e Pachú foram os mais ilustres. E mandaram
tanto porradão - até "itchôtchôméri" - que não deu para
não lembrar. Era o mesmo som que a gente ouvia, eu,
Sabrina e Renata, amigas de infância (e às vezes tam-
bém aparecia a Aline, ou o Erick e o Marcinho, que
adoravam tirar uma casquinha). Era sempre assim: de-
cidíamos que a diversão da tarde livre seria ficar no salão
de ginástica dançando. E cata CD da Madonna, e cata CD
da Mariah Carey (é, gente, Maria Carey, Celine Dion e
Enigma são os cafonas que fazem parte da vida de toda
bailarina que cresceu nas academias de dança da zona sul
do Rio) e vai correndo pro salão! Os meninos às vezes fica-
vam na porta espiando (e babando, ainda mais na época
dos hormônios em fúria) e a gente adorava. A tarde toda
rindo, fazendo passinho, inventando coreografias.

Ai, que saudade...

Eu gosto muito de dançar. Na verdade, tanto quanto
escrever, mas escolhi o jornalismo como opção mais
tradicional. Nos intervalos, o que eu faço mesmo é
dançar. Eu não faço mais aulas como fazia quando
era nova, mas tocou alguma música boa por perto,
e se tem espaço e ocasião, eu viajo. E comecei
a perceber que isso acontece desde muito tempo.
Desde criança, com certeza. Então eu lembrei de
como me sinto bem quando saio de uma festa ro-
deada de amigas, com o cangote suado de tanto
se perder na pista. É pra isso que eu saio, basi-
camente. Mas com a companhia ideal, tudo fica
melhor ainda.


postado por Lost in translations às 4:51 PM

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

O ATOR



Poema de Eucanaã Ferraz

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.


postado por Lost in translations às 7:08 PM

Terça-feira, Setembro 16, 2008

Eu blogo, tu blogas e...Saramago bloga!



Que a blogosfera atrai cada vez mais fãs não é novidade
para ninguém. Mas ter o prazer de acompanhar o blog
de um Prêmio Nobel de Literatura é não só notícia quen-
te como maravilhosa! Isso mesmo: ninguém mais, nin-
guém menos que José Saramago. Segundo o autor do
belíssimo 'Ensaio sobre a Cegueira', o espaço irá trazer
"o que for, comentários, reflexões, simples opiniões so-
bre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice".

Intitulado O Caderno de Saramago, o blog está dispo-
nível dentro do site da Fundação Saramago e já conta
com dois textos publicados. No primeiro, publicado
ontem, o escritor resgatou um texto antigo sobre Lis-
boa, que ele definiu como uma verdadeira "carta de
amor" à capital portuguesa:

"Decidi então partilhá-la com os meus leitores e ami-
gos tornando-a outra vez pública, agora na página in-
finita de internet, e com ela inaugurar o meu espaço
pessoal neste blog", escreve Saramago, ao apresen-
tar o texto.

Na entrada desta terça-feira, o autor comenta o pedi-
do de desculpas da Igreja Anglicana a Charles Dar-
win por não compreender sua teoria evolucionista.

"Nada tenho contra os pedidos de perdão que ocorrem
quase todos os dias por uma razão ou outra, a não
ser pôr em dúvida a sua utilidade", declarou o escritor
em seu blog.

Saramago terminou um novo livro, chamado A Viagem
do Elefante
, que será lançado em breve em espanhol,
português e catalão. Um trecho da obra está disponível
no blog da Fundação José Saramago, onde também
está hospedado o blog do escritor.


postado por Lost in translations às 9:30 PM

Sábado, Setembro 13, 2008

Dona Val

Dez horas da manhã é um horário privilegiado para se acordar
numa quinta-feira, dia útil. Mas nem o feixe de sol forte e quente
queimando na testa me tirou da cama antes. A quarta-feira foi
longa e cansativa, e o dia que mal começava já trazia desafios.
Primeiro acordar, depois tentar não atrapalhar o serviço de Dona Val.

Meticulosa, ela arruma tudo por etapas e com dedicação. Tem um
tom matriarcal de tratar-nos, faz perguntas sobre nossa vida e é
curiosa. Não consegue limpar uma prateleira sem folhear um pouco
os livros, nem tirar o pó de um álbum de fotografias sem observar os
rostos e cores por alguns momentos de pura e simples curiosidade.
Não sei se já perguntei ou se ela mesma comentou, mas acho que
Dona Val não tem filhos, ou tem, mas não é casada. Pelo menos eu
não escuto menções a nenhum marido em suas histórias, e ela até
que fala bastante. Porém, pensando melhor, ela fala bastante sim,
mas faz muito mais perguntas do que qualquer outra coisa. Pergunta
quem é quem nas fotos, onde eu tirei a foto tal, que livro é aquele com
um baralho cigano na capa. Explico tudo, com calma e gosto, e muito
mais intrigada com o interesse dela do que com qualquer grande
teoria que se esconda em uma daquelas tantas páginas empoeiradas.
O ser humano é a maior onda.

Dona Val comentou quase sussurrando que era engraçada a história
que ela leu na minha revista. Encabulada, como se não soubesse que
reação minha esperar, ela soltou essa. Mas eu aliviei a barra e achei até
muito bacana. Ela leu a história da mulher que depois de não sei quantos
anos de casada sentia vontade de procurar um ex-amor, o qual ela acre-
ditava que lhe faria, finalmente, feliz. Muito engraçado, achou a Dona Val,
e me contou rindo. Achei uma graça o interesse dela pela leitura.

- Você gosta de ler, Dona Val?

- Gosto, eu leio de tudo. Jornal, revista... mas eu gosto muito mais assim...

- Tipo romance, uma história?

- É, uma coisa assim, com história de gente, sabe, eu gosto de história
de revista.

- Mas você lê livros também, Dona Val?

- Leio, mas é que eu não tenho muito, assim, e livro mesmo assim,
é muito caro.

- Não é não, Dona Val. Livro é uma peça rara por causa disso. A história
não muda. Mudam as capas, as edições e, claro, uma boa nova edição,
cheirosinha, novinha, é uma delícia. Mas se o seu dinheiro é pouco, isso
não te impede de ser uma sonhadora no mundo dos leitores. Fique à von-
tade para pegar qualquer um aí da estante. E se um dia estiver pelo Cen-
tro, busque nos sebos, eu te faço uma lista de indicações. Você prefere
romances bem românticos, histórias de gente, de vida?

- Isso, e não precisa ser história de amor não. Mas história com gente.

- Entendi Dona Val. Você tem alma de antropóloga, como eu. Pode deixar
que eu vou pensar e da próxima vez que você vier aqui em casa, te passo
uma lista. Aproveito e já separo alguns que eu já tenho aqui, para você es-
colher.

Dona Val abriu um sorriso grande e agradeceu muito. Eu fiquei mais feliz ainda.


postado por Lost in translations às 4:31 PM

Built To Spill
Impossível não AMAR




He's more farce than father
he's more of a dog than dogs are
it depends, we're just dots and commas
I'd still say you got one on us
theres not reason for it
dont despise it and don't adore it
it's just a habit
it's just a habit i formed

this ones a super sonic
this one's got too much on it
this ones a freak
this ones for free
theres no reason for it
dont despise and dont adore it
it's just a habit
it's just a habit


postado por Lost in translations às 1:19 AM

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

PEGUEI MEU ITA NA URCA
A própria alienação é política

por Fausto Wolff



Uma criança de 6 anos que foge de casa
porque apanhou ou porque tem fome está
cometendo um ato político.

Se todo ato é político, precisa ser analisado
dialeticamente.

O que faz um rapaz interiorano, classe média,
com sensibilidade artística, que chegou a ser
um prefeito amado pelo povo de Campos, um
rapaz que se dizia meu grande admirador,
transformar-se no chefe de uma quadrilha de
ladrões?

Certamente, uma educação que conduz fatal-
mente à ganância, que diz que um homem só
se realiza, só é um vencedor, se tiver, se for rico.

Jesus, se em vez de ser um andarilho sem um
tostão, mas com estranhas idéias libertárias na
cabeça, fosse um mercador de queijo, teria
vencido, não é mesmo?

O homem de bom senso, portanto, procura,
antes de tudo, descobrir os motivos políticos
que levam o outro a discordar dele.

Tornou-se um axioma a afirmação de que você
só existe se tiver.

Como a maioria, vai tentar obter o que precisa
da maneira mais simples e rápida possível.
A própria lei é um contra-senso, pois, na me-
dida em que diz que roubar é um crime, numa
inguagem metafórica televisiva quase lhe
obriga a roubar.

O alienador procura tanto alienar que se torna
ele mesmo um prisioneiro das palavras que
repete, mas nas quais nem ele crê, pois alie-
nou-se de si mesmo – virou prisioneiro da
alienação.

Em política, há dois discursos: o demagógico
e o econômico. Quem quiser conhecê-los a fundo
e quiser eleger-se deve estudar muito, ou ser filho
de milionário, o que, na maioria dos casos, é uma
questão puramente espermática.

Minha ignorância não é especializada, e por isso
sou ignorante em todos os setores, e certamente
no economês.

A imprensa, cada vez mais, desde a ditadura e dos
cursos de jornalismo, tende a usar uma linguagem
fria, imparcial (como se isso fosse possível) e,
naturalmente, a linguagem do poder.

Se ele for militar, a imprensa jogará com o jargão
"castrense", por exemplo; se for econômica, usará
os maneirismos de Wall Street, e assim por diante.

Uma família classe média sabe que sua obrigação é
ter mais, para ser mais apreciada. Os ricos, porém,
não precisam explicar nada. A riqueza não se explica.
Ela se basta. Quem me deu essa aula foi Vasco
Leitão da Cunha, e, sem usar uma palavra de eco-
nomês, certamente enriqueceu meu espírito.

Eu não entendo os que falam em macroeconomia com
todos seus zeros, pontos e vírgulas. Quem escreve tam-
bém não entende (informação não é cultura) de eco-
nomia, e 99% passam batidos pelas manchetes de
macroeconomia.

O que os leitores querem saber é por que o preço do
arroz aumentou se somos a 10ª economia do mundo
(outra mentira).

Ouvi, recentemente, alguns discursos em economês
altamente surreais, desonestos e até mesmo inde-
corosos.

O primeiro foi de Mangahunguer, com seu ar de Mussolini
com cabelos, sotaque de Utah, queixo prognata, olhar
ameaçador, estilo "estão entendendo, seus idiotas?",
e certamente uma das criaturas mais chatas do nos-
so pobre planeta. Tentava convencer a platéia de
que é fácil o entendimento entre os camponeses e
a grande indústria agrária: de um lado, as má-
quinas; de outro, os camponeses, que trabalham
a R$ 40 por mês, "mas que devem ser aumentados".

Na platéia, as pessoas, que não haviam entendido
um tímido picle, não sabiam se riam ou choravam,
enquanto, no pódio, o bizarro ser levava avante seu
balé hemorroidário. Quem viu o desempenho sabe
do que estou falando.

Entre a máquina e os operários, mas sentados numa
boate do Leblon, estão os filhos dos usineiros, os
novos amados de seu Luiz, recebendo o seu em espécie.

O segundo discurso foi o do seu Luiz, que não
está nem aí para esses detalhes. Saía do bom
para o mau humor com espontânea freqüência,
insistiu que a floresta amazônica é nossa –
quando até agora ninguém disse o contrário –,
mas também informou que o Brasil estava de
portas abertas para quem quisesse ajudá-lo –
e quem quereria enfrentar malária, bicho de pé,
beribéri, chulé, caspas e brotoejas para ajudar
o Brasil sem levar uma bolada?

Nós é que temos mania de perdoar dívidas, dar
mãozinha no Haiti e mostrar lá fora como somos
realmente ricos, com nosso Super-Lula e suas
três mesas de bilhar e uma piscina.

Por outro lado, também devemos demonstrar
como precisamos de ajuda, tal qual a Ásia e
a África, onde, na maioria das aldeias, as mu-
lheres, com seus longos saris, apenas se
abaixam para fazer pipi na rua.

Para esses países, americanos e europeus
ocidentais sempre deram um jeito de piorar
a situação.

O discurso menos complicado, porque a ora-
dora conhece menos de 100 vocábulos, foi
da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa.

Ela, copiando seu Luiz quando não está nos
USA tratando Bush como se fosse um Gun-
ga Din, disse que os americanos só metem
a mão no Pará se pagarem pela energia,
pois índio também tem direito a liqüidificador.

Comecei a rir, mas logo as lágrimas brotaram
em meus olhos, ao pensar como puderam nos-
sos irmãos nativos viver tanto tempo sem liqüi-
dificador.


*Infelizmente, esta é uma homenagem póstuma.
Originalmente publicado no JB, em 03.06



postado por Lost in translations às 4:50 PM

Sexta-feira, Agosto 29, 2008

N.E:. O poder e a beleza da poesia também podem
estar na hora em que ela foi publicada.


postado por Lost in translations às 12:10 AM

Sem nome

Um me liga para agradecer
Outro diz que serei sempre dele
Dizem que sou especial e que precisam me ver
Um deles se despede me chamando de anjo
E vão embora, ou voltam para elas
Mas eles nunca me deixam
Eles voltam, e falam
Eu sou linda, inteligente, brilhante
Eu vou longe
Eles torcem, vibram, escrevem
Cantam os meus parabéns
Engraçado como antigos amores inspiram
Alguns pedem até perdão
Formulam perguntas e escrevem teses
Falam em amor, lembram do meu perfume
Mas não estão comigo agora
Eu sou amada por muitos
Longe de tudo e de todos
E começo a amar o silêncio
E a minha companhia
Cato outros pensamentos
Em páginas que nunca li
E me encontro fria, nova, inteira e exausta
Entre páginas, examinando o amor dos outros
Feito cientista

Eles devem achar que eu sou de pedra.


postado por Lost in translations às 12:00 AM

Domingo, Agosto 24, 2008

Entre poemas, sonetos e baladas



Vinicius de Moraes, assim como tantos outros brilhantes escri-
tores, teve a coragem de entregar-se totalmente ao seu ofício,
desde sempre misturando completamente sua obra com sua
vida. Vinicius foi o poeta da existência, e, mais precisamente,
o poeta da paixão.

Foi com o seu primeiro amor, Tati, que o poetinha descobriu
sua verdadeira arte, que começa então a deixar de lado a
moral jesuíta dos tempos de escola, ou o conservadorismo
dos colegas da faculdade de Direito do Catete. Vinicius en-
contra na paixão a inspiração para versos mais realistas e
humanos, porém de extrema sensibilidade.

Na primeira aula no curso da Casa do Saber, com o jornalista
José Castello, falamos da timidez de Vinicius, da ingenuidade,
dos versos iniciais truncados de medo e dúvidas, da melancolia.
Discutimos os motivos ocultos da personalidade confusa do
menino que tão cedo tornou-se homem, poeta e diplomata.
E nunca mais parou de transformar sua arte. Apaixonou-se pela
vida, por versos, amigos, sorrisos, acordes e muitos beijos.

Ah, e claro: garrafas e garrafas de uísque.

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure




postado por Lost in translations às 1:50 AM

Sábado, Agosto 16, 2008

Nem sonhando



Tem dias em que eu acho que o autor da minha
vida FUMA um baseado. Dias como esta sexta-feira,
ou a madrugada de quinta, porém o mais interessante
mesmo aconteceu na manhã de sábado. Tinha uma
pauta em Brasília, sexta-feira. A passagem foi com-
prada às pressas na quarta, e só no dia seguinte eu
soube que deveria estar no Aeroporto do Galeão SEIS
horas da manhã. Dormi de improviso na casa de uma
amiga e, por sorte, tinha levado uma muda de roupa,
pois havia uma ligeira possibilidade de eu me empol-
gar e ir numa festa. Nem em sonho: tive mesmo que
ficar vendo o vôlei e a ginástica olímpica até bater o
sono, que anda atrasando. Dormi muito mais tarde
do que eu gostaria, e a Jade ainda caiu de bunda
duas vezes, Fui para a TV, voei para Brasília, gravei
debaixo de sol o dia todo, e voltamos no vôo das
NOVE da noite.

MEIA-NOITE E VINTE chegava no Rio, e como
viajamos SEM produção, tive que retornar ao pré-
dio da TV, para devolver as fitas e etc. Até tinha
DINHEIRO para o táxi, mas resolvi diminuir o valor
do taxímetro. Misturei-me pela multidão de aflitos
por prazer e alegria nas ruas barulhentas da Lapa.
Andei até o ponto e consegui pegar um ônibus até
o Leblon. Chegando lá, passava OUTRO, vazio e
tranqüilo, para a Barra. Peguei, e depois ainda tive
a sorte de achar uma van novinha saindo em dire-
ção à minha casa. Missão cumprida: cheguei três
horas da manhã, morta de CANSAÇO. Caí na
cama e só acordei às TRÊS DA TARDE. Quer dizer,
era o que eu pensava que havia acontecido.

Segundo a minha irmã, por volta das NOVE da manhã, ela e o
namorado acordaram com o MEU CELULAR tocando. Várias ve-
zes e bem alto, segundo ela. Ela garante que EU ATENDI e con-
versei com uma pessoa, amigavelmente, durante um tempo. Eu
estava dormindo, mas ela tem certeza, e não estava brincando
quando me falou. Eu não me lembro de nada, apenas que acor-
dei com a sensação de que eu havia sonhado muita coisa e
que, COMO SEMPRE, havia esquecido quase tudo.

Corri para meu quarto e conferi: às nove horas da manhã,
havia uma CHAMADA ATENDIDA no meu celular. De um nú-
mero desconhecido, e não tinha como saber quantos segun-
dos ou minutos – será? – que eu falei com a ‘tal pessoa’ no
telefone. Parecia que era com uma amiga, disse minha irmã.
Eu? Não sei mesmo. Estava sonhando, dormindo, até onde
eu sei.

???


postado por Lost in translations às 10:45 PM

Domingo, Agosto 10, 2008

Santa Festa




Sabe aquele dia em que você tem mil opções para escolher, sabe
que precisa sair de casa, mas não sente a mínima vontade de se
arrumar, contactar amigos por celular, entrar num táxi e se mandar?
Era a minha sexta-feira. E tem sido assim, ultimamente, mas sei
que preciso reagir ao processo caverna, pois ainda sou muito nova.

Sara é editora lá na TV, uma figura muito figura. Ela me apresentou a
uma galera bacana no aniversário dela, e me convenceu a acompanhá-la
em mais uma empreitada do animado grupo, que se conheceu na
sala de aula do curso de roteiro da escola Darcy Ribeiro. Eu e ela
estávamos hiper maquiadas. Acordamos cedo na sexta-feira e fi-
zemos teste para apresentadora. Oito horas depois, estávamos indo
para a casa dela, e de lá iríamos para a festa em Santa Teresa.
Fechado.

A casa centenária transforma o ambiente por si só. Uma carroça
e uma bicicleta estão penduradas no teto e na parede. A vista é
uma coisa de louco. Vejo a ponte, as torres, um milhão de
luzinhas vibrando, acendendo e apagando. É o lar de uma espé-
cie curiosa que eu ando investigando. Um ser que é uma mistura
de ancião, profeta e malandro, mas que é tão humano quanto eu
e você. A sensação da sabedoria nata se dá por um fato inegável:
Miguel carrega anos de uma vida muito interessante nas costas.
E tem histórias incríveis para contar.

Já passou dos sessenta, e depois de chegar à direção de uma
grande empresa, aposentou-se e decidiu correr atrás do sonho
mais antigo. Miguel sempre quis ser cineasta. O problema é
que ele é do tempo que estudar cinema era coisa de filho
de gente rica ou doido. O moleque gaúcho precisava fazer
um curso mais tradicional, que garantisse o sustento. Veio
moço pro Rio e estudou na UFRJ quando ela ainda se
chamava Universidade do Brasil.

Formado na escola de cinema, Miguel hoje trabalha na área
e, nas horas vagas, tem uma vida mais incrível, jovial
e movimentada que a de qualquer garotão de vinte e poucos
anos. Vive intensamente, espalha energia, alegria, sorriso
e doçura. Conquista as mulheres - bem mais novas do que
ele - com seus elogios de um verdadeiro gentleman.

E foi em meio a este clima de pessoas felizes, jovens de
todas as idades, dos vinte aos sessenta, que eu passei o fim
da sexta-feira e o nascer do sábado. Ainda bem que eu
decidi sair da caverna e conhecer gente nova. Eu também
quero ter sessenta e ter um monte de coisa bacana pra
contar.

Life is Fun.


postado por Lost in translations às 9:16 PM

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Dois favoritos

Bukowski

Oh, sim!
Há muitas coisas piores
Que estar sozinho
Aprendi isto por décadas
Vivendo assim
E, muitas vezes,
Quando você chegava
Era demasiado tarde
E não há nada pior
Que chegar tarde demais.

Pollock



postado por Lost in translations às 7:57 PM

Quarta-feira, Julho 23, 2008

Um debut que envergonha

Hoje, dia 23 de julho, completam-se quinze anos de um crime que
chocou o Brasil e o mundo. Oito menores que viviam na rua foram
assassinados por policiais militares em frente à Igreja da Candelária,
no centro do Rio de Janeiro. Na véspera, os menores haviam
apedrejado uma viatura da polícia em resposta à prisão do traficante
Marcus Vinicius de Souza, fornecedor de cola de sapateiro. Outra
possível causa da violência foi o atropelamento da mulher de um
policial na avenida Presidente Vargas para fugir de um arrastão
dos menores. O testemunho de um dos sobreviventes, Wágner
dos Santos, levou vários policiais à prisão. A chacina provocou
reações de políticos, religiosos e de organizações de direitos
humanos do mundo inteiro e revelou a situação dos meninos
de rua no Brasil e a violência policial.

Naquela noite, 72 meninos e meninas de rua dormiam pelas
redondezas. Os policiais pareciam ter um alvo apenas, mas
levaran outros sete com ele, atirando a esmo, feito fossem
bonecos de pano embrulhados em cobertores sujos no chão
frio da rua, em pleno inverno.

Observando as manchetes atuais, infelizmente, pouca coisa mudou.
Quinze anos depois.
Impressionante?

Pois no dia 30 de agosto deste ano, outro exemplo de total descaso
com a vida também completa 15 anos. A chacina de Vigário Geral
foi um dos mais chocantes episódios de violência policial ocorrido
no país. Dez traficantes da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro,
mataram quatro policias do 9° Batalhão da Polícia Militar, em 28 de
agosto de 1993. Dois dias depois, por vingança, 21 pessoas sem
antecedentes criminais foram assassinadas por policiais militares.
O Ministério Público denunciou 33 homens pela chacina e os 29 PMs
envolvidos foram expulsos da corporação. Atualmente, os culpados
encontram-se em celas comuns de delegacias e da Polinter.


postado por Lost in translations às 5:42 PM

Terça-feira, Julho 15, 2008

MGMT

Time To Pretend


I'm Feelin rough I'm Feelin raw I'm in the prime of my life.
Let's make some music make some money find some models for wives.
I'll move to Paris, shoot some heroin and fuck with the stars.
You man the island and the cocaine and the elegant cars.

This is our decision to live fast and die young.
We've got the vision, now let's have some fun.
Yeah it's overwhelming, but what else can we do?
Get jobs in offices and wake up for the morning commute?

Forget about our mothers and our friends.
We were fated to pretend.

I'll miss the playgrounds and the animals and digging up worms.
I'll miss the comfort of my mother and the weight of the world.
I'll miss my sister, miss my father, miss my dog and my home.
Yeah I'll miss the boredom and the freedom and the time spent alone.

But there is really nothing, nothing we can do.
Love must be forgotten. Life can always start up anew.
The models will have children, we'll get a divorce,
we'll find some more models, Everything must run its course.

We'll choke on our vomit and that will be the end.
We were fated to pretend.

yeah yeah yeah



postado por Lost in translations às 10:56 PM

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Um dia difícil

Neste domingo eu acordei e ela estava lá, vagando pela
memória, trazendo cheiros e gostos, e muita, muita
saudade. Chega a ser indelicado falar assim, mas os
feriados de homenagem podem ser muito cruéis.
Comerciais, reportagens, outdoors, promoções em
shoppings e restaurantes. Enquanto uns comemoram
felizes, outros tentam esquecer a data, mudar o assunto,
segurar o choro no ônibus ou na rua. Não é fácil. E creio
que não são poucas as pessoas que, como eu, sofrem
um bocado no Dia das Mães.

Maria Beatriz é o nome da minha mãe. Lindo, não acha?
E não é só o nome. Ela é uma mulher muito bonita. Nas
propagandas, todos os textos ressaltam a importância
da mãe em nossas vidas, o amor incondicional, os
sacrifícios pelos filhos, e tudo aquilo que aprendemos
com elas, as mães. As estrelas do mês de maio.

Neste domingo, não estarei com ela. Minha mãe viajou.
Foi buscar a si mesma outra vez. Foi tentar juntar os cacos e
dar um tempo na vida. Foi difícil convencê-la da necessidade
de ficar sozinha. Era e continua sendo seu maior medo.
Talvez os anos, os erros, as mágoas, as dores, os fracassos
e as culpas pesassem demais para ela, no silêncio da própria
companhia. É o máximo que eu consegui entender, até agora.

Quem nunca fugiu dos próprios pensamentos? Bia fugiu a vida
toda, e agora não suporta nem um dia a sós consigo mesma.
Não tem mais amigos. É triste, porque, no fundo, ela é uma
mulher incrível. E eu me conforto com a idéia de que ela ainda
vai voltar de lá, desse fundo de si mesma, e renascer numa
nova vida. Ainda teremos muitos dias a celebrar. Até lá, eu
espero, e aprendo o que ela não conseguiu me ensinar: a
ser sozinha.

Tenho saudade e muito amor esmagado. Esmagado porque eu
vivo fingindo que ele não existe. Pensar nele demanda tempo,
estrutura e coragem. Ando carente de ambos os três. Às vezes,
recuar é parte do jogo, e legítimo. Recorrer à distância também,
afinal, ninguém enxerga bem diante de decisões que mexem com
tanto amor. Um amor único, insubstituível. Um dos poucos tão
fortes assim.

Alguns dias, como hoje, trazem ele à tona sem que eu tenha
qualquer controle. E aí eu preciso encarar. Chorar é um alívio,
mas nem sempre sai. O jeito é conversar com Deus. Eu mando
recados por ele, peço, agradeço, mas insisto que o foco é nela,
porque se eu não posso estar perto, que ao menos Ele esteja.

Mãe, eu te amo.


postado por Lost in translations às 4:06 PM

Domingo, Maio 11, 2008

Diva de presente

Não saberia precisar exatamente como começou, mas lembro-me
que foi numa tarde parecida com a que fez nesta sexta-feira, com
sol forte e vento frio, que eu percebi que adorava a Madonna. Ela
já vivia espalhada pela minha vida, num hit que tocava nas festinhas
de aniversário ou na baladinha que entrava para a trilha sonora das
novelas, que a minha irmã sempre comprava - nacional e internacional.
Mas lembro da semana em que soubemos, eu e minhas amigas,
que a Madonna ia fazer um show no Brasil. Era a turnê do The Girlie
Show, que foi um sucesso e era super avançada para a época.

As coreografias eram um máximo, Madonna estava no auge da
boa forma (e ainda com trejeitos mais femininos e menos músculos,
se é que vocês me entendem). Devíamos ter uns 12 anos, mais ou
menos, e sabíamos que ela tinha se tornado um símbolo sexual. De
alguma forma, isso parecia empolgante e proibido. Tínhamos que
convencer nossos pais.

Quando eu conheci o disco Erótica, não sabia falar tão bem o inglês.
Decorava as palavras, e como sempre tive facilidade, imitava direitinho
as pronúncias. Mas não entendia nada do que ela dizia nas letras.
De qualquer forma, adorava. Era dançante e perfeito para quem estudava
dança, como eu. Além do mais, eu estava prester a explodir meu barril
de hormônios e, quando vi 'Na cama com Madonna', eu era muito nova
para entender, mas acho que acabei entendendo. Ela jogou 'Human
Nature' na minha cara quando minha mãe mal havia conversado comigo
sobre ciclo menstrual. Mas a mensagem veio poderosa e eu já entrei na
adolescência com vocação para quebrar regras e tabus. De alguma forma,
as músicas tornaram-se trilha de alguns momentos de minha vida, e eu
sofria como Madonna as frustrações com a vida, a perda da ingenuidade,
os recomeços. Madonna e eu vivemos em um eterno processo camaleônico,
e acho que por gosto. Eu cheguei a pensar que entendia as decisões
dela, apesar de ter me decepcionado em alguns momentos.

Durante um tempo, andei afastada. Como quando ela pirou na batatinha
e virou um equivalente a um vaso de cerâmica indiano cheio de desenhos
tatuados em henna. Eu não curti a fase 'cult' da Madonna, apesar de
'Frozen' ter sido tema de tantas coreografias na minha academia.

Mas, de fato, com uns 12 anos, eu fiquei do carro, olhando a
movimentação de pessoas entrando no show dela. Eu já era fissurada,
desde menininha, em hits como 'Material Girl' e 'La is La Bonita',
que algumas vezes tocavam até no carro da mamãe. Minhas colegas
e parceiras das aulas de dança conseguiram a companhia de um
adulto e a permissão para ir. Minha mãe não deixou, nem acompanhada
da mãe da minha amiga. Fiquei arrasada, mas fui com elas no carro,
até a porta. Só para ver onde era, e sentir como deveria ser. Guardei
essa vontade até hoje e já cheguei a cogitar uma ida a NY só para
aproveitar uma turnê dela. Planos não concretizados. Mas neste
ano de 2008, que já tem sido bem generoso, eu terei a chance de
vê-la. Quase 20 anos depois de ter começado a dançar suas músicas.
Minha mãe diz que eu já dançava no ritmo da música, fazendo passos
e poses, antes mesmo de aprender a andar pra valer. Madonna é tão
bailarina quanto cantora, e acho que foi isso que sempre me atraiu mais.

Por isso, nada poderia ser mais emocionante do que saber
que irei comemorar meus 26 anos dançando as músicas dela, num
show dela, aqui no Rio. No dia do meu aniversário! Achei simbólico
demais para ignorar. Mal posso esperar. Dia 14 de dezembro, meninas!

Guardem na agenda, colem um adesivo bem brega e façam
uma estrela com caneta dourada!


Express Yourself!



postado por Lost in translations às 1:41 AM

Quarta-feira, Abril 30, 2008

São Paulo, parte dois: Higienópolis, Diadema,
Língua Portuguesa e Don Juan.


Dois dias e meio inteiros no Rio entre oito dias e meio
em São Paulo. Sobe e desce de avião vira quase rotina,
e de repente percebe-se que o aeroporto de Congonhas
é uma verdadeira versão paulista da Central do Brasil.
Avião mais barato que ônibus eu achava difícil de ver.
Estamos vendo.

Higienópolis foi o cenário da parte dois de minhas
andanças na capital mais populosa do país. O hotel
fica na Rua Maranhão, rodeada de outras dedicadas
a outros estados, como a Piauí, a Campinas e, claro,
a Rio de Janeiro. Estou gravando entrevistas para
uma série sobre Língua Portuguesa e não podíamos
deixar de gravar na cidade que concentra o maior
número de falantes de português do mundo.

Gravamos no museu, na Estação da Luz, e a chuva
atrapalhou um pouco. No dia anterior o vilão foi
o sol, que tava quase ‘carioca’. Lá em Diadema,
conhecemos um grupo de hip hop muito baca-
na. Nunca tinha ido longe assim. São Paulo e suas
dimensões (assustadoras) revelam-se cada vez mais
para mim.

Bati um papo e tomei um capuccino no agradável
café da Pinacoteca – lembra o café do palácio do
Catete. Comi em um restaurante que é o point dos
taxistas em São Paulo, com um preço justo e bem
baratinho para um prato de comida caseira. E, final-
mente, achei um bar comparável a um simples bote-
co carioca, o Samaro, onde uma amiga me esperava
com garrafas e mais garrafas geladas de Antartica Ori-
ginal. Parece ser bem freqüentado, apesar de super
simples e de não ter nada demais. Brindamos ao lado
do Don Juan de Marco.

Voltei para casa mesmo debaixo de chuva, afinal, dessa
vez são os paulistas que vêm me visitar. Os mano e as
mina.


postado por Lost in translations às 11:31 PM

Sábado, Abril 26, 2008

São Paulo, terremoto, mundo gay e outras peripécias

Mais que um descanso, dessa vez São Paulo trouxe novidade. Trouxe lições
antropológicas, companhias agradáveis, balinhas japonesas e até tremor de terra.
O prédio onde minha amiga mora, no Paraíso, balançou. E não foi bobo não.

Estava no décimo quarto andar e senti o bão-ba-la-lão nitidamente. Liguei imedia-
tamente para minha amiga para avisar que o apartamento dela era estranho.
Disse para ela procurar a corretora pois a estrutura do edifício não prestava. Achei
que tinha sido um vento forte. Muito estranho. Mas logo soubemos: era um
terremoto. Em São Paulo? É, e não só em São Paulo. Minha irmã mandou até
mensagem de celular, preocupada.

Pela primeira vez, visitei a Liberdade. Comi sorvete Melona de banana,
os bolinhos de camarão mais incríveis que já provei na vida, e um docinho típico
que era mais lindo de se ver fazer do que gostoso. Nas barracas de culinária
típica japonesa, muitos velhinhos e velhinhas trabalhando. Uma cena linda,
muito simbólica da cultura que tanto tenho vontade de conhecer de perto.
O trabalho é chato: virar bolinhos. O dia todo, numa chapa quente, com a
ponta de um garfo. Cuidadosamente. Mas o que se vê é um trabalho bem feito
e expressões serenas. Uma lição oriental.

Fui na balada recomendada: A Lôca, na Frei Caneca. Fui avisada de que era
'um pouco' GLS. Não era pouco. Mas o ambiente era excelente, as músicas
muito empolgantes e, devo admitir, o clima muito animado. Mas a noite deixou
um ar esquisito para mim. Não tenho nem nunca tive preconceitos, mas gosto
de homens, e vi cada gatinho beijando outro que, sorry, 'migas', deu pena.
De mim, claro. Cada vez mais fica difícil pensar num futuro em que
heterossexuais serão a maioria. Muito pelo contrário.

Enquanto vou me transformando em um dinossauro, dessa vez aprendi: não
dá para calcular tempo por distância em São Paulo da mesma forma que
faço no Rio. Parece óbvio, mas fiz isso e me atrasei para o vôo em Congo-
nhas, pela terceira vez neste mesmo aeroporto, por causa do trânsito na
Bandeirantes. É isso mesmo? Bom, sei que, daqui pra frente, vai ser uma
hora e meia, no mínimo, de antecedência. Mesmo com as novidades bacanas,
o trânsito chato sempre marca minhas idas à São Paulo, não tem jeito.


postado por Lost in translations às 12:39 AM

Terça-feira, Abril 15, 2008

Impossível não registrar

Há algo de poético e trágico na foto divulgada hoje
pela Agência Espacial Européia. É lixo, lixo da gente
no espaço, e olha que não é tão fácil assim ter acesso
a esse 'lixão'.



Em junho de 1988, a Super Interessante já havia alertado para
os prejuízos causados pelo lixo espacial. Abaixo, a matéria:

Os perigos do lixo espacial
(Revista Super Interessante - 1988)

O lixo espacial é responsável pela maior parte dos acidentes com naves,
satélites e até astronautas. No entanto, os perigos desses objetos
causarem danos na Terra é bem pequeno. Os detritos provenientes dos
objetos lançados pelo homem no espaço, que circulam ao redor da Terra
a cerca de 28 000 quilômetros por hora, constituem o que se chama lixo
espacial. São estágios completos de foguetes, satélites desativados,
tanques de combustível e fragmentos de apilrelhos que explodiram.

Desde o lançamento do primeiro satélite artificial pelos soviéticos
- o Sputinik - em 4 de outubro de 1957, cerca de 18 mil objetos foram
colocados em órbita. Até recentemente contavam-se 10 mil objetos
de grande ou médio porte e outros 40 mil de pequenas dimensões.
O mais preocupante é que apenas uns 7 mil são maiores do que 20
centímetros. Abaixo desse tamanho, eles se tornam praticamente
invisíveis, pois não são percebidos nas telas dos radares. Até agora,
a maior parte dos acidentes com naves, satélites ou astronautas foi
provocada por fragmentos oriundos da atividade espacial pacífica.
Mas com o início dos testes com armas anti-satélites e do programa
Guerra nas Estrelas, dos Estados Unidos, o problema do lixo
espacial vem se agravando de forma assustadora.

Em teste realizado com um satélite destruído por um míssil,
275 fragmentos foram registrados em radares, logo após a
explosão. Mas deve existir um número muito maior de pequenos
fragmentos que não puderam ser percebidos. Há vários exemplos
de veículos espaciais danificados por colisões com detritos
espaciais. Uma caixa de instrumentos eletrônicos do satélite
americano Solar Maximum, recuperada pelos astronautas num
vôo da nave Challenger, apresentava 160 perfurações produzidas
por lascas de tinta.

Resíduos orbitais danificaram também as células solares do satélite
europeu GEOS 2, colocado em órbita pela Agência Espacial Européia.
Também sofreram danos provocados pelo lixo espacial os satélites
Cosmos 954 e Cosmos 1275, da União Soviética, o satélite-balão
americano Pageos e uma das janelas da nave recuperável Challenger,
durante seu penúltimo vôo, em 1985, antes do acidente que a destruiu
em janeiro de 1986.

Que ameaça esses objetos - pelo menos os de médio e grande porte
- podem representar aqui na superfície da Terra? Parece ser muito
pequena certamente menor que o risco representado pela queda de
meteoritos - e as estatísticas mostram que a margem de danos pessoais
provocadas por essas quedas é de um a cada trinta anos.
Em geral quatro meteoritos de uma tonelada penetram todos os dias na
atmosfera terrestre e a queda de corpos mais pesados não é rara.
Em 19 de maio de 1976, uma chuva de fragmentos atin, giu 500 quilômetros
quadrados no Nordeste da China. O maior desses fragmentos pesava
quase duas toneladas - e ninguém morreu. Em dois séculos, apenas
sete pessoas foram atingidas por meteoritos, e nenhuma sofreu danos graves.

A média de objetos do lixo espacial que reentram na atmosfera terrestre
é 35 por mês. Todos os objetos colocados em órbita um dia voltarão à
Terra, mas muitos deles levarão centenas, milhares ou mesmo milhões
de anos para reentrar na atmosfera, Alguns, por suas dimensões e
constituição, serão consumidos pelo atrito. Um dos maiores objetos
que já reentrou na atmosfera foi o estágio do foguete Saturno que em
1973 lançou o Skylab. Pesava 38 toneladas e caiu no oceano Atlântico,
em janeiro de 1975. Outros fragmentos do Skylab caíram no solo e
nenhum provocou danos, Não foi registrado, até hoje, nenhum caso
de acidente provocado pela queda de satélites ou de objetos do
lixo espacial. O perigo existe, é claro: as 38 toneladas do Saturno
passaram sobre Los Angeles pouco antes de caírem no Atlântico,
perto dos Açores. Mas é pequeno, Felizmente, parece que o lixo
espacial ameaça mais os astronautas em suas naves no espaço
do que as pessoas cá embaixo graças ao envoltório gasoso
- a atmosfera - que recobre a nave em que viajam, a Terra.
Ele consome a maior parte dos fragmentos que poderiam cair aqui.


postado por Lost in translations às 9:26 PM

*No headphone*

TV on the radio

Songorocosongo

The Racounteurs

MGMT


postado por Lost in translations às 6:58 PM

Sexta-feira, Março 14, 2008

Expectations


postado por Lost in translations às 5:13 PM

Trilha para um temporal clássico




Um título. Se eu fosse crítica de música eu estaria
agora buscando um título. 'Mico' talvez não seja apropriado,
mas, de fato, foi nesse tom do 'constrangedor'. Apesar de
tudo, os caras mereceram a expectativa e a boa vontade
de boa parte do público, que pisou na lama e foi alvo de
um monte de pingões de chuva no olho ao longo de todo show.
Mas, ok, os roqueiros de terno e gravata do Interpol
executam muito bem os instrumentos, e mesmo o
som fraco da Fundição Progresso não estragou de
vez a brincadeira. Os nova iorquinos parecem ter
mesmo gostado daqui.

"Tolerância Mil" poderia ser um bom título. Ainda mais no meu caso
por que, além da chuva, do som baixo, e de um certo
desconforto geral, havia um grupo de meninas que berrava
o tempo todo. Elas também sabiam cantar todas as músicas,
mas não cantavam, berravam. E quando os momentos de
silêncio de algumas músicas chegavam, elas aproveitavam
para mandar recados para o além, tipo 'Alê, eu te amo!".
Eu até mudei de lugar, mas o lado direito estava tomado
por água, o esquerdo idem e não restava opção que não o
grupinho da cabeceira.

Mais próximo ao palco, obviamente, o som não incomoda
mais, nem pode-se ouvir os berros das fãs exaltadas.
Eis que, no auge da empolgação, no ápice da grande lenda,
o som pára, subitamente! Um senhor de camisa preta
aparece na cochia direita do palco, com expressão de
nítido estresse, e faz um gesto feito um juiz encerrando
uma partida de futebol. Os artistas parecem não estar
entendendo muito bem, mas começam a deixar suas
posições e a soltar seus instrumentos. A luz acende.
A platéia vaia, a chuva aperta e o senhor irritado
parece mais irritado ainda.

Depois de cerca de 15 minutos, ou mais, perdão
a imprecisão, há algum sinal de movimentação no palco,
e o público reveza momentos de euforia e cansaço.
As vaias cessaram quando os cinco rapazes simpáticos
retornaram ao palco e deram motivo para voltarem a
berrar. O show teve momentos de glória como "Slow Hands",
"Evil", "PDA" e "Stella was a diver and
she was always down", já esperados, diga-se de passagem.
São mesmo as mais letras mais conhecidas e favoritas do
público, que não chegou a lotar a Fundição Progresso. O pior foi
assistir aos cambistas oferecendo por vinte reais o mesmo ingresso
que muitos deram cem, e outros tantos desembolsaram cinqüenta.
Mas o pequeno público - que se ajeitou de qualquer jeito debaixo
das goteiras gigantes - não desanimou e conseguiu transformar
um show que tinha tudo para ser gelado numa festa morna,
e às vezes até bem quente.

Talvez a banda tenha se frustrado com um pouco de bagunça
em momentos muito sensíveis das músicas mais densas.
Era como se parte do público, ou por achar legal,
ou por não saber a letra, ou mesmo por simplesmente não saber
o que fazer com as mãos, resolvesse bater palmas com o ritmo
todo errado. Principalmente nos momentos de 'silêncio',
feito quisessem prencher o ar com barulho. Desnecessário, mas
não chegava a cortar totalmente o clima.

Com um quê de trilha sonora, o Interpol levou para a Fundição
Progresso um pouco do seu som bem diferenciado. Um tanto
pesado emocionalmente, mas levado por um teclado com muita
identidade. O bis acabou sendo o restinho do show todo, pelo
o que entendi, e o bis 'mesmo' foi uma música só, mas
que bastou para quem foi até lá, debaixo de um temporal,
por que em meados de 2002, ou 2003, ou até mesmo 2004,
conheceu o primeiro CD de uma nova banda de Nova York,
que parecia ter chegado para lançar mais um.

Um não, dois. Mas do terceiro disco mesmo, eles pouco
tocaram. "Rest your Chemestry" levou alguns fãs aos bocejos.
Mas no balanço geral, contando ainda com belos efeitos
de luz, quem ficou devendo não foi o Interpol, nem seu público.
Foi a casa.

Mais?



postado por Lost in translations às 4:51 PM

Quinta-feira, Março 06, 2008



80 anos de um ídolo

Mesmo que eu nunca tivesse dado muita bola para o título,
"Cem anos de solidão" foi um livro que perseguiu meus
olhos pelas prateleiras da escassa biblioteca caseira que
minha mãe mantinha em seu quarto. Eu entrava lá de
vez em quando, passava a mão num livro, e levava pro
meu canto. Ela nem percebia e, claro, não reclamaria se
notasse, mas era mais divertido brincar de pegar 'escondido'.

Como na escola a professora de Literatura insistia nos
clássicos (e indispensáveis, claro), eu catava na biblioteca
ou nas estantes 'proibidas' do meu mundo de fantasias
algo diferente, moderno, que falasse mais a minha língua.
Comecei a achar meus pares: Drummond, Vinícius de
Moraes, Clarisse Lispector. Minha mãe quase não lia
estrangeiros, e adorava poesia.

'Amor, verbo intransitivo" foi minha primeira descoberta.
Adolescente e apaixonada por vários meninos ao
mesmo tempo - o da escola, o vizinho, o da natação
e do prédio do lado - eu ia direto nos títulos que
tinham a palavra 'amor'. Por isso levei um certo tempo
até sentir-me atraída por 'Cem anos de solidão'. Eu olhava,
achava o título triste, e procurava outra coisa.
Até que um dia a capa com desenhos meio ciganos
me chamou a atenção. Para uma menina de 14 anos,
foi quase um trauma: não consegui parar de ler.
Acho que não levou nem uma semana para devorar
até a última página.

Muitos anos depois, e já com as 'minhas' prateleiras,
(nada proibidas, porém muito pessoais), achei num
sebo a mesma edição. Ela fica entre os vários outros
livros de Gabriel Garcia Marquéz que me encantaram,
acima de tudo, pelo texto. O escritor colombiano tem
o texto que eu queria ter, personagens sensacionais,
um jeito incrível de descrever ambientes, expressões,
cenas. É uma mistura que chega a ser complexa, algo
que não consigo encontrar em nenhum outro tesouro das
minhas prateleiras brancas.

Hoje, dia 6 de março, Gabriel faz 80 anos.


postado por Lost in translations às 6:19 PM